No gosto do ronco que rosna
No busto disposto na Bósnia
Imposto no bronco da esbórnia
Que rosna no tronco do rosto.
Desgosto que aposto não tarda
Retarda o aposto que chega
No torno do gesto que atesta
O feno do fauno faminto...
Na fresta da fossa que sinto
Eu minto do abismo de mim
Eu largo essa posta malfeita
Afogo outro afago chinfrim.
De bobo no lago maldito
Um grito de apego em latim
Suspiro em apuro eu convoco
O forno do adorno sem fim
RISCOS NUS
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Sal dá Saudade
Há muito não sei o que é ter saudade
Não muito, talvez, já não sei se me invade
Essa coisa esquisita meio paralisante
Que faz tudo ao redor ser tão entediante
Mas há muito não sei o que é de verdade
O quase voluntário adeus à liberdade
Imprudente e tenaz, delicada bacante
Essa coisa cruel, purgatório de Dante
Não sei do teu rosto, mas sinto teu cheiro
Que vem forte e impregna o mundo inteiro
E já ouso dizer que é saudade, nêga
Talvez seja mesmo, quem sabe é um sinal?
Jamais foi carência, ou carícia afinal
Só sei que só passa quando você chega.
Não muito, talvez, já não sei se me invade
Essa coisa esquisita meio paralisante
Que faz tudo ao redor ser tão entediante
Mas há muito não sei o que é de verdade
O quase voluntário adeus à liberdade
Imprudente e tenaz, delicada bacante
Essa coisa cruel, purgatório de Dante
Não sei do teu rosto, mas sinto teu cheiro
Que vem forte e impregna o mundo inteiro
E já ouso dizer que é saudade, nêga
Talvez seja mesmo, quem sabe é um sinal?
Jamais foi carência, ou carícia afinal
Só sei que só passa quando você chega.
Soneto da Moda
Se a cada desastre tornássemos mortos
Festivo velório protagonizaria
Cercado de amigos, encharcados, tortos
Sorrindo ao caixão, em negra boemia
Mas novos desastres esperam à frente
Morrer é tão nobre e cheio de apatia
Que vive-se ainda neste verão quente
Prenhe de paixão, solidão e agonia
No olho dos outros, censura e prudência
Pueris, secos, sós, de escrota incoerência
Que basta, acomoda e faz desastroso
Aquilo que é sal, que é calor e pulsão...
Do salto do abismo ao duro do chão
Até o cemitério tem que ser charmoso.
Festivo velório protagonizaria
Cercado de amigos, encharcados, tortos
Sorrindo ao caixão, em negra boemia
Mas novos desastres esperam à frente
Morrer é tão nobre e cheio de apatia
Que vive-se ainda neste verão quente
Prenhe de paixão, solidão e agonia
No olho dos outros, censura e prudência
Pueris, secos, sós, de escrota incoerência
Que basta, acomoda e faz desastroso
Aquilo que é sal, que é calor e pulsão...
Do salto do abismo ao duro do chão
Até o cemitério tem que ser charmoso.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Quente
Se mente,
A gente
não
planta a
semente.
Se sente
e sinta a
torrente
não raro
à mente
de trás para
a frente.
Acidentalmente
Inclemente...
Aldente
Ar, dente, mente
indecente.
A gente
não
planta a
semente.
Se sente
e sinta a
torrente
não raro
à mente
de trás para
a frente.
Acidentalmente
Inclemente...
Aldente
Ar, dente, mente
indecente.
domingo, 12 de dezembro de 2010
Poeira
Aprendera aquilo em algum livro cujo título não se lembrava e fez-se o hábito. A cada fracasso amoroso espalhava o pó sobre o espelho e escrevia o nome da falecida. Martha, Rúbia, Simone, Aline... Cheirava-as furiosamente e rumava pra qualquer puteiro em busca daqueles nomes que lhe anestesiavam as ventas.
Dessa vez exagerou. Verônica, com circunflexo e tudo, lhe deu dor de barriga e algum suor frio. No meio do caminho, entrou em qualquer restaurante e desembarcou no banheiro feminino. O seu estava ocupado. Aliviou-se ruidosamente agredindo a clientela...
Pediu uma puta com o nome da vez. O cliente sempre tem razão. Com algum sacrifício, esporrou sua saudade e sua dor. Saiu de lá leve e, antes de ir embora cheirou o "p" deixando o "a" e o "z" pra Verônica, tudo em minúsculas.
Dessa vez exagerou. Verônica, com circunflexo e tudo, lhe deu dor de barriga e algum suor frio. No meio do caminho, entrou em qualquer restaurante e desembarcou no banheiro feminino. O seu estava ocupado. Aliviou-se ruidosamente agredindo a clientela...
Pediu uma puta com o nome da vez. O cliente sempre tem razão. Com algum sacrifício, esporrou sua saudade e sua dor. Saiu de lá leve e, antes de ir embora cheirou o "p" deixando o "a" e o "z" pra Verônica, tudo em minúsculas.
Urbano
Meteu mais duas pedras de gelo no copo vazio, derrubou o resto que ainda havia na garrafa, espremeu um limão e misturou com o dedo. Entre uma bicada e outra sentiu saudades do tempo em que reclamavam de dores de cabeça, de dente e desvios de septo e de conduta. Biópsias, tumores, infartos e velórios agora eram assuntos comuns.
Olhou pra baixo, acendeu um cigarro e tossiu. Doeram os pulmões e escarrou grosso. Bebeu ainda um último gole. Deixou a mesa e foi urinar. Ao voltar, pôs uma nota na mesa e não se sentou. Sorriu amarelo quando todos chamaram-no fraco. Já não estavam brincando, mas não eram cruéis como as crianças. Eram fatais em cumplicidade como só os velhos sabem ser. Acenou com as costas da mão esquerda enquanto ajustava os dedos no chinelo.
Ao se deitar, pousou os óculos no criado e desejou um infarto. Rápido e infalível... Socou-lhe o sol no dia seguinte e, acendendo seu café da manhã, agradeceu a qualquer Deus por mais um dia.
Olhou pra baixo, acendeu um cigarro e tossiu. Doeram os pulmões e escarrou grosso. Bebeu ainda um último gole. Deixou a mesa e foi urinar. Ao voltar, pôs uma nota na mesa e não se sentou. Sorriu amarelo quando todos chamaram-no fraco. Já não estavam brincando, mas não eram cruéis como as crianças. Eram fatais em cumplicidade como só os velhos sabem ser. Acenou com as costas da mão esquerda enquanto ajustava os dedos no chinelo.
Ao se deitar, pousou os óculos no criado e desejou um infarto. Rápido e infalível... Socou-lhe o sol no dia seguinte e, acendendo seu café da manhã, agradeceu a qualquer Deus por mais um dia.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Idealização da Humanidade Futura*
*Augusto dos Anjos
Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
- Homens que a herança de ímpetos impuros
Tornara etnicamente irracionais!
Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No húmus dos monturos
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!
Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão...
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!
Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
- Homens que a herança de ímpetos impuros
Tornara etnicamente irracionais!
Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No húmus dos monturos
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!
Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão...
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!
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